sexta-feira, 20 de outubro de 2017
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
Formação e atuação dos professores: dos seus fundamentos éticos
Como
o processo educativo ocorre paralelamente ao desenvolvimento contínuo de um
sujeito por um lado conectado a comportamentos e atitudes cristalizados na
cultura e, por outro, relacionado pela consciência crítica a ideais de
liberdade e cidadania, cada educador em formação, mergulhado em incertezas,
necessita construir instrumentos próprios que lhe possibilitem subsídios para
lidar com o seu universo educacional de maneira verídica e producente,
dialogando com as interrogações que se impõem a cada dia, e, ao mesmo tempo,
desenvolver uma nova consciência de pertença a um todo integrador das várias
nuanças que compõem o tecido social, onde se inclui a educação.
Ora, a
educação é uma modalidade de ação intrinsecamente relacionada à existência do
outro. E uma prática que, por sua natureza, pressupõe uma intervenção
sistemática na condição do outro. Em sendo uma prática interventiva, traz em
seu próprio processo um risco muito grande de atingir a identidade e a
dignidade do outro. Por isso mesmo, ela é lugar onde se faz ainda mais
necessária a postura ética, tal o potencial
que tem de agredir a dignidade do outro, dos educandos.
O homem como ser social,
está diuturnamente partilhando experiências e relações com os seus semelhantes,
pois somente adquire a humanidade quando imerso na vida gregária. Essa
associação se efetiva por meio das relações pessoais, coletivas e de trabalho as
quais são sedimentadas em meio a um universo próprio à comunidade a qual está
inserido, e, portanto, são permeadas pelas peculiaridades de seu tempo
histórico. As relações são partilhadas por indivíduos semelhantes, mas com
características subjetivas, políticas, econômicas e culturais as mais diversas;
são contextuais. Cada um com seus interesses, suas aspirações, seus desejos,
suas paixões e suas razões. Há, desse modo, a necessidade de mecanismos de
orientação e regulação da forma de os sujeitos estarem em sociedade no intuito
de contribuir com uma convivência respeitosa e pacífica. “A ética se instaura
no âmbito dessa ambigüidade, reconhecendo, por um lado, a fragilidade do humano
com suas paixões e, por outro, a tentativa permanente de construir normas que
regulem a convivência humana para além da particularidade [...]” (HERMANN,
2001, p.11).
Severino (2007, p. 193)
enfatiza que “a ética contemporânea entende que o sujeito se encontra sob as
injunções da história que até certo ponto o conduz, mas que é também
constituída por ele, por meio de sua prática efetiva” . Está inscrita não na
natureza ou essência humana, como foi entendida em outras épocas, mas no
caráter social e histórico, na dimensão coletiva e política da existência dos
indivíduos, pois a “ação do sujeito não pode mais ser vista e avaliada fora da
relação social coletiva” (idem, p. 193).
Destaca-se como um desafio
da escola e do docente, fazer com que os alunos se percebam e comportem-se como
membros de uma comunidade. O ambiente escolar é eminentemente coletivo e possui
cultura e dinâmicas próprias, cujas características se fundam no diálogo de
seus sujeitos em interface entre a tradição educacional e as inovações cada vez
mais exigidas nos contextos contemporâneos; constitui-se em espaço privilegiado
para esse exercício.
A ação educativa escolar não é um
fazer por fazer, mas um fazer intencional. Tratase da intencionalidade de um
coletivo de sujeitos. Essa intencionalidade coletiva, porém, é impossível de
ser construída sem que haja um mínimo de clareza teórica no nível dos sujeitos
participantes, isto é, sem que os envolvidos nessa construção saibam dar as
razões que motivam suas práticas. (BOUFLEUER, 2001, p.10)
CROCODILOS E
AVESTRUZES
Ligia Amaral apresenta de maneira muito hábil
suas reflexões, posicionamentos e inquietações pertinentes ao espaço das
diferenças/deficiências, salientando a importância de o leitor ser informado a
respeito do lugar de onde ela fala, esclarecendo que falar de algo interno a si
próprio amplia a validade e significação do discurso.
Como ponto de partida, Ligia Amaral
torna urgente, ao tratar do termo diferença, primeiramente, seu esforço no
sentido de colocar sob os holofotes aquilo que apreende como diferença em seus
textos, visto que esta pode fazer referencia a inúmeras
manifestações/estados/coisas.
Então, pontua que a diferença a que se refere
é a “diferença física”, aquela que pode ser “absorvida” pelo olhar do outro,
enfatizando a amplitude desta idéia, fazendo-nos pensar a respeito de tão vasto
é esse contexto, utilizando como exemplos de diferenças físicas o obeso, o
baixo, o negro, aquele que utiliza óculos, o surdo, o cego, o paraplégico etc.
No entanto, evidencia que o lugar da diferença, inegavelmente, é o corpo.
(AMARAL, 1998)
Debruçando sobre essa construção conceitual,
intencionando enveredar por caminhos mais significativos e relevantes, mas não
menos tortuosos, a autora apresenta o conceito de “significativamente
diferente” ou “diferença significativa” como sinônimo de
deficiente/deficiência.
A diferença pode ser
construída negativamente – por meio da exclusão ou da marginalização daquelas
pessoas que são definidas como “outros” (...) Por outro lado, ela pode ser
celebrada como fonte de diversidade, heterogeneidade e hibridismo, sendo vista
como enriquecedora: é o caso dos movimentos sociais que buscam resgatar as
identidades sexuais dos constrangimentos da norma e celebrar a diferença.
(WOODWARD, 2000, p.50).
Para Amaral (1998) mediante
manifesta diversidade, e considerando sua proclamada legitimidade, o pensamento
a respeito da diferença significativa ou deficiência, possivelmente, encontrará
uma nova mentalidade. A autora revela, desta maneira, uma das idéias nucleares
desse caminho tortuoso, que pode nos levar, não somente a entender, respeitar e
aceitar o “outro”, mas, e principalmente, se colocar no papel do “outro” ou
permitir ao “outro” ser “eu”, assim
O preconceito é uma construção
conceitual estabelecida anteriormente à nossa experiência. Constituindo duas
dimensões principais: uma é a atitude, definida a partir de nossas
predisposições psíquicas favoráveis ou desfavoráveis (para o nosso discurso,
desfavorável) em relação a algo ou alguém, sendo seus conteúdos emocionais a
admiração, medo, raiva, repulsa, amor, ódio etc; agindo com filtro para nossas
interpretações e percepções. E a segunda dimensão trata do desconhecimento, o
qual deriva da desinformação dos fatos ou sentimentos/emoções não elaborados.
(AMARAL, 1998).
Conclusivamente, externamos a necessidade
de sairmos da posição de avestruzes, transformando nossos pensamentos e anseios
em objetivações, em ações práticas que se materializem no dia-a-dia, utilizando
as pontes movediças do conhecimento teórico-científico para transitar de
maneira segura pelo rio das relações intra e interpessoais, que estão repletas
de crocodilos que levam a tonalidade e o peso do preconceito, do estereótipo e
do estigma.
As metáforas dos crocodilos e
avestruzes utilizadas pela autora nos remetem à complexidade do momento atual,
no qual as relações humanas evidenciam crises, embates e a falta de respostas
para a diversidade e para as diferenças. Ainda vislumbramos ou mesmo tateamos
estratégias e modos de conduta ética para lidar com esta realidade e percebemos
que esta preocupação tem sido crescente na formação de pessoas voltadas às
relações humanas, como é o nosso caso.
sábado, 16 de setembro de 2017
EDUCAÇÃO
INCLUSIVA
A Sociedade, em todas as culturas,
atravessou diversas fases no que se refere às práticas sociais. Ela começou
praticando a exclusão social de pessoas que, por causa das condições atípicas,
não lhe pareciam pertencer à maioria da população. Em seguida, desenvolveu o
atendimento segregado dentro de instituições, passou para a prática da
integração social e recentemente adotou a filosofia da “inclusão” social para
modificar os sistemas sociais gerais. Essas fases não aconteceram ao mesmo
tempo para todos os segmentos populacionais. Ainda hoje vemos a exclusão e a
segregação sendo praticadas em relação a diversos grupos sociais vulneráveis,
em várias partes do Brasil, assim como em praticamente todos os outros países.
Mas também vemos a tradicional integração dando lugar, gradativamente, à
“inclusão”
A inclusão tem por objetivo a
construção de uma sociedade para todas as pessoas, sob a inspiração de novos
princípios, dentre os quais destacam-se: celebração das diferenças, direito de
pertencer, valorização da diversidade humana, solidariedade humanitária, igual
importância das minorias, cidadania com qualidade de vida. Muito antes de
alguns movimentos internacionais e nacionais adotarem oficialmente a idéia de
uma sociedade inclusiva, profissionais espalhados pelo mundo se articulavam em
busca de estratégias que dessem às pessoas com necessidades especiais uma vida
mais digna.
O princípio fundamental da escola
inclusiva consiste em que todas as pessoas devam aprender juntas, onde quer que
isto seja possível, não importam quais dificuldades ou diferenças elas possam
ter. As escolas inclusivas precisam reconhecer e responder às necessidades
diversificadas de seus alunos, acomodando os diferentes estilos e ritmos de aprendizagem
e assegurando educação de qualidade para todos, mediante currículos
apropriados, mudanças organizacionais, estratégias de ensino, uso de recursos e
parecerias com suas comunidades:
A
meta principal da inclusão é a de não deixar ninguém no exterior do ensino
regular, desde o começo. As escolas inclusivas propõem um modo de se constituir
o sistema educacional que considera as necessidades de todos os alunos e que é
estruturado em virtude dessas necessidades (MANTOAN, 1997, p. 145).
A terminologia que designa a pessoa
com necessidades especiais vem passando por mudanças ao longo dos anos. Na
verdade, o primeiro termo adotado foi “excepcional”, depois “pessoa
deficiente”, “pessoa portadora de deficiência”, “pessoa portadora de
necessidades especiais”; hoje “pessoa com necessidades educativas especiais”.
Tais designações restringem-se muito ao âmbito da Educação. O termo deficiente
implica não ser eficiente: esta conotação é muito forte, principalmente numa
sociedade como a nossa, onde o modo de produção é o capitalista, em que são
muito exigidas a eficiência e a produtividade. Nesse sentido, podemos constatar
que essas mudanças de terminologia não minimizaram a questão da marginalização
social desses indivíduos.
(APRENDER - Cad. de
Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, AnoII, n. 2, p. 79-91,
2004)
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
IMPACTO DAS MIDIAS NA VIDA HUMANA
“Nós temos a chance de uma virada. Vou usar uma palavra mais
difícil: epistemologia do século 21 em que o conhecimento atingiu um novo
patamar de validação. Temos a chance, mas isso ainda não ocorreu. Nós não
estamos brilhantes ou mais produtivos do que há trinta anos. Apenas estamos
incrivelmente mais ocupados com o mundo virtual.”
(Trecho de
entrevisthttp://www.portalraizes.com/leandro-karnal-shakspeare-facebook/a )
Atualmente as pessoas passam mais tempo
na internet do que se comunicando pessoalmente com outras pessoas. Refletir
sobre os impactos das redes sociais na vida pessoal é importante para não se
deixar levar pelo mundo virtual apenas e se isolar do mundo real.
O mundo virtual tomou conta da vida
das pessoas. As redes sociais mais do que nunca fazem parte da rotina de muita
gente, chegando mesmo a trazer problemas de relacionamento, comunicação e
administração do tempo.
Não dá mais para viver sem a comunicação virtual, pois as informações
estão nas mãos de todos de forma instantânea. Todos os dias surgem novos
equipamentos e softwares que transformam a rotina de crianças, jovens, adultos
e também dos idosos, que descobriram a internet como um meio de terem mais
atividades e se comunicarem com seus familiares que moram em lugares distantes
.
Existem muitos fatores positivos na utilização das redes sociais, como
por exemplo, a troca rápida de informações, a atualização em tempo real do que
acontece em todos os setores (acadêmicos comerciais e empresariais). O Facebook
possibilitou o reencontro de amigos, familiares e colegas da época de
estudante. Através dessa rede social as pessoas curtem, comentam, postam e se
divertem com as piadas, vídeos, charges e muitas outras formas de comunicação.
O Skype consegue encurtar a distância entre familiares, amigos, namorados,
sendo também atualmente utilizado pelas empresas para entrevistas de seleção de
pessoas. O WhatsApp se transformou na maior comunidade virtual na qual se
postam fotos, vídeos e mensagens de maneira instantânea, conectando diversas
pessoas ao mesmo tempo.
São diversos os aspectos positivos da
comunicação virtual, porém, o uso excessivo ou indiscriminado da internet,
juntamente com as redes sociais, podem trazer resultados negativos nas relações
pessoais, na comunicação com o ambiente externo, além do mau desempenho
profissional. O impacto negativo é tão grande que algumas posturas diante desse
tipo de comunicação já são consideradas como as grandes “sabotadoras do tempo”,
tendo em vista que qualquer ruído de notificação no smartphone tira
imediatamente a concentração das pessoas nas atividades que possam estar
realizando. Outro fator que deve ser levado
em consideração é o perigo da falta de socialização devido ao uso
indiscriminado das redes sociais.
sábado, 2 de setembro de 2017
Carolina Maria de Jesus, a catadora de letras
A escrita de Carolina Maria de Jesus é sua forma de se recusar a ser “despejo” em uma sociedade desigual que a empurrou para a miséria
Carolina Maria de Jesus foi uma das escritoras brasileiras mais expressivas, traduzida para mais de dez idiomas. No Japão, o livro ganhou o título de Karonina nikki, algo como O Diário de Carolina.
Quarto de Despejo foi seu maior sucesso, mesmo assim não é tarefa das mais fáceis encontrá-lo nas livrarias; é mais provável que seja encontrado nos sebos.
Não por acaso só recentemente pude descobrir sua história e sua escrita: se o trabalho das escritoras é geralmente subvalorizado e apagado, o trabalho de uma escritora negra, pobre e favelada encontra ainda mais dificuldades para superar a barreira da invisibilidade.
Catadora de lixo e moradora da favela do Canindé, em São Paulo, na segunda metade da década de 50, Carolina usava os cadernos que encontrava no lixo para escrever sobre seu cotidiano e pensamentos. Virou um diário que passou a ser publicado num jornal; há inclusive trechos em que os vizinhos vêm tirar satisfação com ela sobre algo que ela escreveu.
O quarto de despejo surge como uma metáfora para a desigualdade que estabelece seu papel e sua posição nessa história: ela aponta que, enquanto o centro da cidade é a sala de visitas, a favela é o quarto onde se joga o indesejável, o entulho, tudo aquilo que se quer esconder. Sua escrita, no entanto, é sua forma de se recusar a ser “despejo”, a ser “resto”.
Sua voz é marcante não pelos “erros” gramaticais preservados pela edição (o que aliás me deixou a dúvida: isso teria sido uma forma de respeitar sua escrita, de mostrar que o texto tem valor independente de “norma culta”, de apontar que ela não precisa ser corrigida ou transformada em algo dentro do padrão, ou seria uma forma de apresentar uma escrita “autenticamente de favelado”? Realmente, não sei), mas sim pela sensibilidade para os detalhes normalmente desprezados pelo nosso olhar.
APRENDIZAGEM HUMANA SEGUNDO BECKER
... o processo mais fundamental
de toda conduta de aprendizagem consiste em que o sujeito aprenda a aprender
(apud Inhelder, Bovet, Sinclair, 1977, p.116).
Aprendizagem
é um processo de mudança de comportamento obtido através da experiência
construída por fatores emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais.
Aprender é o resultado da interação entre estruturas mentais e o meio ambiente
Para Fernando Becker, é preciso que a escola
pública aprenda e mude muito. O fundamental dessa aprendizagem, disse com
exclusividade à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail, é que
"não se aprende porque se repete". Em seu ponto de vista, alicerçado
nas teorias de Jean Piaget, considerado como o Einstein da Psicologia, o que
vale é o contrário: se repete porque se aprendeu. "A repetição só é
legítima quando se compreendeu um conteúdo qualquer. A escola continua
cometendo esse equívoco de achar que a repetição, por si só, produz
aprendizagem, mesmo quando se repete algo que não se compreendeu. Esse equívoco
custa muito caro, pois despende as preciosas energias dos alunos que poderiam
agir, cada vez com mais autonomia, sobre os conteúdos, potencializando sua
aprendizagem, e do professor que as despende com arroubos disciplinares -
controle de comportamento -, pois os alunos não suportam repetir o que não lhes
faz sentido". Ele continua: "A atividade da escola deve
transformar-se a partir do princípio de que o aluno é um centro de atividade, e
não um receptáculo vazio a ser preenchido de conteúdos, freqüentemente sem
sentido. Simplificando, a escola precisa transforma-se cada vez mais em
laboratório, e ser cada vez menos auditório"
O grande desafio do século XXI, pelo menos do
início deste século, é o de transformar o ensino na medida do processo de
aprendizagem, e esta na medida do processo de desenvolvimento do conhecimento
humano. A atividade da escola deve transformar-se a partir do princípio de que
o aluno é um centro de atividade, e não um receptáculo vazio a ser preenchido
de conteúdos, freqüentemente sem sentido. Simplificando, a escola precisa
transforma-se cada vez mais em laboratório, e ser cada vez menos auditório. Os
agentes dessa transformação são, em primeiríssimo lugar, os professores. Isso
demanda uma formação docente de grande envergadura. O professor precisa
aprender a ensinar pela atividade do aluno. O aluno que não age sobre um
conteúdo qualquer, não consegue aprender esse conteúdo, muito menos transformar
sua capacidade de aprendizagem, ampliando-a. Isto é, uma escola ativa não só
ajuda o aluno a aprender, mas a se desenvolver, isto é, a aumentar sua
capacidade de aprender; ou, como lembra Piaget, a aprender a aprender. Aliás,
Piaget tem muito a dizer para esse processo de formação docente.
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